domingo, 23 de julho de 2017

As Moedas da Fazenda Bom Sucesso

                                      Frei Hermínio Bezerra de Oliveira
                                                                                       (Numismata)

                                                          Da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza. 

            A ocorrência de moedas particulares no Brasil é rara. O numismata Kurt Prober, em seu prestigioso Catálogo de Moedas Brasileiras, apresenta-nos apenas duas: a da Companhia Inhomerim, de Nicteroy (RJ), sem data, no valor de 120 réis; e as moedas da Fazenda Bom Sucesso (CE–Baturité), de 1895, em três valores: um Alqueire (=36,27 litros), uma Terça (=12,8 litros), uma Quarta (=9,7 litros). Essas medidas correspondem à quantidade de café colhida, a qual era paga em réis, a moeda corrente, até outubro de 1942, quando foi substituída pelo cruzeiro e este pelo real em 1994. Já os Carimbos Particulares, são numerosos, pois Kurt Prober traz 279 deles (Vide: K. Prober, Catálogo das Moedas Brasileiras, 2ª ed.1966, São Paulo, pp. 132-137).  



A serra de Baturité – a 100 km de Fortaleza – teve com a cultura do café, o seu período áureo, comparável ao ciclo da borracha na Amazônia. A cultura do café ali, ao contrário do que muitos pensam, não dependia tanto dos grandes latifundiários, mas da roças ou capoeiras de café, dos pequenos proprietários, que eram numerosos na área.

A Fazenda Bom Sucesso, de Manoel José D’Oliveira, por sua localização e a situação hídrica, reunia condições para a construção de um “rodeiro” de beneficiar      café. Com o “rodeiro”, boa comunicação e a confiabilidade da vizinhança, ele passou a beneficiar quase todo o café da serra de Baturité. Assim, ele tornou-se um dos maiores proprietários da região no final do século XIX e início do século XX.

Com um grande poder aquisitivo, ele mandou cunhar as moedas na Europa, provavelmente em Portugal, conforme pesquisa do historiador Levy Jucá. Elas têm a particularidade especial de trazer, não o valor em réis, mas certa quantidade de cereais: um Alqueire, uma Terça, uma Quarta. Isso facilitava a operação de compra do café colhido. Essas moedas tinham liquidez no comércio local e regional, pela credibilidade de que gozava o Sr. Manoel J. Figueredo. Elas circularam por cerca de 20 anos, de 1896 a 1916 e eram aceitas até nas vizinhanças: Maranguape, Quixadá e outras cidades.



Na Fazenda Bom Sucessso estabeleceu-se um peculiar sistema econômico. Naquela época não havia inflação mas, no inverno, o café tinha ainda mais valor por ser mais difícil. Por seu volume de negócios, o Sr. Manoel José D’Oliveira Figueredo passava o verão na serra e o inverno no sertão. A Fazenda ficava próxima à então vila de Guaramiranga, não longe do topo da serra. O clima da região era petropolitano, chegando a 13º nas noites mais frias, quando hoje não sei se chega a 16º. Havia uma garoa persistente, uma frequente neblina e uma brisa prazerosa constante, algo para muitos inimaginável, no nordeste do Brasil.

À época eram vários os proprietários notáveis: Sr. Clementino Holanda, do Sítio Monte Flor; Sr. Filomeno Gomes, do Sítio Nova Friburgo, perto de Pacoti; Sr. Joaquim Torcápio, do Sítio Cana Brava; Sr. Bráulio Holanda, do Sítio Monte Alegre; Coronel Alfredo Dutra, do Sítio Álvaro; Coronel Chichio de Mattos Brito, do Sítio Brejo; Coronel Linhares e Dr. Caracas, do Sítio Venezuela, estes familiares de José Linhares, ex-presidente do Brasil, (de 29/10/1945 a 31/01/1946), e vários outros. Havia outrossim, muita animação sociocultural na região. Alguns dos filhos dos proprietários iam estudar na Europa, sobretudo, em Portugal.


O Vigário de Guaramiranga, Pe. João A. da Frota era um estudioso e possuía uma invejável biblioteca com clássicos da literatura portuguesa, latina e universal. O escritor Gustavo Barroso, cujo avô paterno, Capitão José Maximiliano Barroso, está sepultado no cemitério dessa cidade, era um dos frequentadores da região, assim como Qintinho Cunha. Em Guaramiranga circulava um jornalzinho semanal, manuscrito, intitulado “O Beija Flor”, que era avidamente disputado pelos leitores locais.
Com o passar dos anos a cultura do café na região teve sua decadência por vários motivos, inclusive, o cansaço da terra pelas repetidas queimadas e a falta de insumos adequados. Entre 1910 e 1930, alguns dos sítios foram adquiridos pelos irmãos Boris (da firma de exportação e importação Boris Frères & Cie). Outros entraram em decadência com a morte dos proprietários e o desinteresse ou impossibilidade dos herdeiros em mantê-los. Muitos preferiam viver em Baturité ou em Fortaleza.

O Sr. Manoel José D’Oliveira Figueredo também foi atingido pela crise. Comerciante correto e probo, ele passou cerca de dois anos comprando as suas próprias moedas de quantos as possuíam. Após juntar o máximo que pôde, agora, já sem poder aquisitivo, deu-as ao Coronel Aprígio Alves Barreira Cravo, do Sítio Pau d’Alho, em Pacoti, que em agosto de 1889 recepcionou o Conde D’Eu para um almoço, em sua viagem pelo Nordeste. O Sr. Manuel José entrou em estado de falência na maioria de seus negócios. Desesperado, ele pôs fim à sua própria vida de uma maneira trágica: fincou um punhal num portal e jogou-se contra o mesmo. Requiescat in pace!

 Quanto às moedas, elas passaram por várias mãos. O Coronel Aprígio – herdeiro em confiança – vendeu seu Sítio Pau d’Alho, ao Coronel José Marinho de Goes, porém, deu as moedas e as louças da Casa Grande, ao Coronel Zeca Sampaio, do Sítio São Luis. Desde 1920 essas moedas permanecem entre os descendentes do Coronel Zeca Sampaio: Luís Cícero Sampaio (filho); depois, Onofre Medeiros Sampaio (neto) e atualmente, com o Sr. Francisco Luís Oliveira Nepomuceno (bisneto). Até 1980, elas continuaram a circular exclusivamente no Sítio São Luís, não como moedas, mas apenas como “fichas”, para apanhadeiras de café. A cada balaio de café apanhado a pessoa recebia uma, e, no final do dia, contavam-se os balaios, pelo número de moedas que cada uma detinha era feito o pagamento.


Como vemos, estas moedas fizeram história. Mesmo após encerrarem o seu ciclo produtivo, elas têm hoje, um elevado valor numismático e histórico, por sua inestimável contribuição ao progresso, como capital que produziu trabalho e gerou riquezas no maciço de Baturité e circunvizinhança.

Hoje estas moedas são peças especiais de museus e os numismatas as caçam, como raridades. A elas aplica-se com muita justiça, a frase do grande médico grego, Hipócrates: βἰος βραχὐς, δὲ τέχνη μακρή = A vida é breve, a arte é longa.  Sêneca repetiu-a em: Ars longa, vita brevis = A arte é longa, a vida é breve. Em apenas vinte anos de vida útil e produtiva, o Alqueire, a Terça e a Quarta – da Fazenda Bom Sucesso –  tornaram-se perenes.

O Sítio São Luis com 250 hectares, sendo 150 de mata nativa, continua ativo. Pertence à Sra. Cláudia M. Mattos Brito de Goes. A produção de café na região diminuiu muito nas décadas 1980/1990, mas desde 2015, com a criação da Rota Verde do Café da Serra de Baturité, a Casa Grande, com a sua bela colunata, é aberta a visitantes nos finais de semanas.

É possível uma visita histórica guiada, mas com agendamento prévio pelo site: www.facebook.com/institutositiosaoluis. Além da Casa Grande com suas 30 colunas e o silêncio do local, há um entorno maravilhoso com ótimas opções de lazer.

sábado, 8 de julho de 2017

Uma Cédula: o Reichsmark de 1920

Paulo Avelino


A nota de cem marcos de primeiro de novembro de 1920 se coloca dentro da evolução da moeda alemã. Evolução esta que começou com a criação da nova moeda, o marco, logo depois do surgimento do Império Alemão em 1871. O novo padrão monetário substituía dezenas de moedas de reinos e cidades livres que então constituíam o território no centro da Europa.

Quatro anos depois, em 1875, o novo Estado fundou o Reichsbank, o Banco do Império, o banco emissor principal. Como virtualmente todas as moedas da época, o marco ou Reichsmark era conversível em ouro – ou seja, teoricamente o portador da nota poderia apresentar-se ao banco e receber seu equivalente em gramas do metal.

Nas décadas seguintes as potências europeias se envolveram em corrida armamentista e a Alemanha cresceu muito como poder industrial.

Até que em agosto de 1914 estourou uma guerra, que ficaria conhecida como Primeira Guerra Mundial. O governo alemão imediatamente suspendeu a conversibilidade da moeda. Quanto às despesas da guerra, o governo decidiu financiá-las inteiramente com empréstimos. Não aumentou nem criou impostos. Em contraste, a Franca criou o imposto de renda exatamente para financiar a guerra.

E a Alemanha perdeu a guerra em novembro de 1918. Então a estratégia adotada mostrou seu lado negativo – o governo se viu atolado em dívida. Além disso os vencedores no Tratado de Versalhes impuseram pagamento de reparações – o que aumentou ainda mais os problemas.

As reparações só podiam ser pagas em moeda estrangeira. Para comprá-la, o novo governo alemão usava notas de marcos. O problema é que o governo começou a emitir cada vez mais marcos, e estes passaram a diminuir de valor.

A nossa nota data exatamente desse ponto. No seu alto temos a inscrição RBDReichsbankdirektorium – a diretoria do banco central, com as assinaturas dos diretores também na nota. Temos o valor Hundert Mark (cem marcos) e imediatamente abaixo um aviso de que a caixa central do banco em Berlim deve pagar por esta nota o valor equivalente. Esse aviso era típico das moedas conversíveis. Sobre o selo do Diretório vê-se Mercúrio, o deus do comércio.

No verso, o numeral cem aureolado por um aviso de que qualquer imitação ou falsificação será punida com pelo menos dois anos na penitenciária.

Essa nota em pouco tempo passou a valer muito pouco. As emissões acionaram uma espiral inflacionária com os preços a disparar e o governo a emitir mais ainda. Quando foi impressa essa nota valia mais de um dólar. Dois anos depois eram necessárias noventa delas para comprar o mesmo dólar. Mas isso nada seria em relação ao que veio depois: no dia 11 de novembro de 1923 eram necessários quatro trilhões e duzentos bilhões de marcos para comprar um dólar.

A inflação desapareceu quase do dia para a noite com introdução de nova moeda, o Rentenmark. Mas a crise deixou problemas sociais fundos, os quais vieram a facilitar a ascensão do nazismo, anos depois.

A nota é uma pequena parte dessa história.

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Bibliografia:

Deutsche Bundesbank. First German 100 Mark note. Disponível em <https://www.bundesbank.de/Redaktion/EN/Standardartikel/Bundesbank/Coin_and_banknote_collection/first_german_100_mark_note.html> . Acesso em 08 Julho 2017.

Wikipedia. Hyperinflation in the Weimar Republic. Disponível em  <https://en.wikipedia.org/wiki/Hyperinflation_in_the_Weimar_Republic>. Acesso em 08 Julho 2017.

Values of the most important German Banknotes of the Inflation Period from 1920 – 1923. Disponível em <http://www.sammler.com/coins/inflation.htm>. Acesso em 08 Julho 2017.










sábado, 4 de fevereiro de 2017

OS SELOS LOCAIS BRASILEIROS POR ADOÇÃO - VI e Final

Artigo de Carlos Alberto Tavares Coutinho

O Governo Campos Sales (1898/1902) não quis envolver-se na questão do Acre, pois tinha outras prioridades, tais como estabelecer conversações com os bancos credores e tentar negociar uma saída para a questão da dívida interna e a concessão de um empréstimo no valor de 10 milhões de libras esterlinas, a ser utilizado para o pagamento dos juros da dívida externa brasileira nos três anos seguintes.

Ficou a cargo do Governo do Amazonas patrocinar a revolução acreana, para o comando desta revolução foi chamado o gaúcho José Plácido de Castro (1873-1908), um agrimensor estabelecido há alguns anos na região. Com alguns seringalistas começou a luta no dia 6 de agosto de 1902, em Xapuri.
No dia 24 de janeiro os bolivianos são vencidos e Puerto Alonso tornou-se Porto Acre. O objetivo era a anexação ao Brasil, mas o Acre permaneceu num primeiro momento como território independente. E o Brasil, o reconheceu como região em conflito.
O Exército brasileiro controlava parte do território e Plácido de Castro controlava sua porção mais ocidental. Nesse mesmo ano porem o Exército desarmou Plácido de Castro. Como afirma o historiador Antonio Alves, presidente da Fundação Elias Mansour (que faz as vezes de secretaria de cultura do estado): “Um estado que tinha o segundo produto de exportação, com um líder carismático, um exército autônomo, um povo em armas, era muito perigoso para o Brasil”.
Paralelamente, o Barão do Rio Branco negocia o Tratado de Petrópolis, pelo qual a Bolívia reconheceu a soberania brasileira sobre o Acre em troca de alguns milhares de libras esterlinas e da promessa de construção de uma ferrovia que possibilitaria a saída dos produtos bolivianos pelo Atlântico. Plácido de Castro é assassinado poucos anos depois. Mas temeroso daquele povo em armas, o governo brasileiro criou a figura esdrúxula do território para enquadrar o Acre. Prossegue Antonio Alves: “O Brasil é uma república federativa, é a união dos estados da federação. Mas cria-se um território que não é estado. Ele pertence e é administrado pelo conjunto dos outros estados e passa a ser governado por interventores federais. Isso cria na população um sentimento de revolta“. Neste longo período sem autonomia, o Acre só vai se tornar estado em 1962, foi criado  um sentimento oposicionista na população, que às vezes ganhava até um tom meio separatista”.
Em 1913, com a introdução no mercado da borracha plantada pelos ingleses na Malásia, o preço da borracha amazônica despencou e o Acre começou a viver um longo período de decadência econômica, período esse brevemente interrompido durante a Segunda Guerra Mundial. Muitos se foram, mas os seringueiros que ficaram obtêm a permissão para plantar (atividade proibida no auge da borracha). Começou a haver agricultura. Também outras riquezas da floresta passam a ser exploradas, como: castanha, madeira, pele de animais, óleos, ervas etc. Inicia-se uma nova ocupação da floresta. Forma-se assim uma economia um pouco mais diversificada, realmente florestal e uma sociedade cuja convivência com a floresta deixou de ser de conflito com os índios, de conquista, de colonização. Estabelece-se um padrão civilizatório com uma vertente indígena e uma vertente nordestina muito forte. Passa-se a ter a formação da consciência de um povo, noção de regionalidade e uma linguagem comum.

 

Sociedade Colombo – Alemã de Transportes Aéreos - SCADTA

A Companhia Colombiana de Navegação Aérea foi fundada em 26/09/1919, em Medellín. Alguns meses depois, em 03/12, foi realizado o primeiro contrato para o transporte de correspondência aérea, entre o Governo Nacional e esta Companhia. Dois dias depois, é fundada em Barranquilla, a Sociedade Colombo-Alemã de Transportes Aéreos, mais conhecida pela sigla SCADTA.
A SCADTA foi fundada por cinco negociantes colombianos, sendo três deles germano residentes, a partir de uma iniciativa do austríaco Peter Paul von Bauer. Suas primeiras aeronaves foram dois hidroaviões Junkers F13 que, quando entregues, vieram conduzidos por pilotos alemães que, depois, ficaram atuando no local, inaugurando uma prática que passaria a ser a usual.
A empresa começa a voar em 1920, unindo Bogotá ao porto de Barranquilla, uma distância de 650 milhas, que os aviões percorriam em sete horas. O mesmo percurso entre os dois destinos, até então realizado apenas por um combinado trem-barco (não raro, também mulas e cavalos) e que demorava uma semana no período das chuvas, mas poderia chegar a um mês no período das secas.
Barranquilla era estratégica tanto para alcançar o interior do país, através do rio Madalena, como para “facilitar a ligação entre o Pacífico e os portos do Caribe, o que convenceu o governo colombiano a dar suporte a qualquer tentativa de vencer a distância por ar”.

Para voar na Colômbia e alcançar sua capital Bogotá, entretanto, os aviões precisaram de várias adaptações, entre elas a de um radiador para resfriamento e uso de rodas de automóvel, pois, a “América do Sul, como foi logo aprendido, não era a Europa”, estas e outras dificuldades tornaram mais morosa a expansão e mesmo a continuidade dos serviços.
Diante do fracasso da Cia. Colombiana de Navegação Aérea, em 04/10/1920, a SCADTA assume o manejo do Correio Aéreo, o que levou a entrada de Peter Paul Von Bauer no negócio, na virada de 1920 para 1921. Ele vivera na América do Sul entre 1908 e 1916, retornando a Colômbia em 1920, como representante da fabricante alemã de aviões Junker.
A SCADTA passa a emitir seus próprios selos. No fim desse mesmo ano, deu início à venda nos Consulados Colombianos do exterior, os selos da SCADTA, para o transporte aéreo no território nacional, do correio dirigido de outras Nações. Os selos tem uma sobrecarga impressa de uma sigla que identifica o país de origem. A correspondência chegava de barco até Barranquilla e, dalí era transportada por avião. As emissões dessa Companhia duraram até 01/01/1932, quando o Governo da Colômbia assumiu a emissão de todos os selos aéreos.
 Em 1922, Paul Von Bauer tornou-se diretor da SCADTA, geógrafo de formação, criou na empresa uma divisão científica para realizar pesquisa aérea e mapeamentos para o governo; também estabeleceu ligações com várias capitais europeias e outras grandes cidades, incluindo Nova York, onde instalou agências com farto material promocional e “selos especiais (impressos com temas colombianos), nelas e na maioria dos consulados colombianos, de maneira que o mundo logo soubesse que a SCADTA havia chegado e era ´a` empresa aérea na América do Sul.”


O crescimento da SCADTA, cujas linhas alcançavam inclusive os Estados Unidos em 1924, levou Von Bauer a pensar numa SCADTA Internacional. Precisando de mais aviões e de financiamentos, retornou a Alemanha, quando nasce a nova empresa, a Condor Syndikat, uma associação entre a Deutscher Aero Lloyd A. G., predecessora da Luft Hansa, com a Schlubach, Theimer and Co, de Hamburgo e a própria SDACTA. “não é claro o porquê do nome Condor, um abutre andino, ter sido escolhido. Ele não é nativo da Alemanha.” A Condor Syndikat não seria propriamente uma empresa aérea, embora por um curto período tenha atuado como tal no Brasil, mas talvez estivesse mais aproximada do que hoje são as empresas de logística.
Principado de Trindade
A Ilha de Trindade que fica a 1.140 km da costa brasileira, à altura da Capital do Espírito Santo. Tem cerca de 8 km2 e é atualmente ocupada por uma guarnição da Marinha de Guerra do Brasil, encarregada do Posto Oceanográfico existente na ilha.
Embora um grão no oceano, esta ilha tem uma história fascinante de Filatelia, a do auto-proclamado James I, Príncipe de Trinidad, que viveu um sonho. Nascido James Aloysius Harden-Hickey em San Francisco, Califórnia, em 8 de dezembro de 1854, ele era o filho de um rico garimpeiro de ascendência irlandesa. Sua mãe era francesa e na primeira oportunidade, levou o menino para Paris, para a França do imperador Louis Napoleon III e longe do faroeste sem lei.
James Aloysius cresceu tendo o imperador Napoleão como seu modelo. Até cortou a barba da mesma forma como o Imperador francês. Em 1870, o Império de Louis Napoleon caiu para os alemães e começou a era da terceira República francesa. Com a idade de vinte anos, Harden-Hickey entrou a Ecole de Saint-Cyr, a famosa academia militar francesa onde ele se tornou um excelente espadachim, mas sua carreira militar veio a um fim abrupto, quando, recebendo um coice de um cavalo sofreu uma lesão cruel e duradoura que o fazia mancar. Então, incapaz de cumprir uma carreira no exército, como oficial e sem uma profissão, Harden-Hickey entrou para a alta vida parisiense e um mundo de ricos e famosos. Ele se tornou um escritor, jornalista e duelista e freqüentava o "bairro latino"; deu festas pródigas e desperdiçou uma grande parte da riqueza de sua família.
Em 1878, James Aloysius Harden-Hickey se casou com a Condessa de Saint-Pery. Nesse mesmo ano, publicou Le Triboulet, uma revista satírica, e ao mesmo tempo escrita no estilo de irreverencia, seu conteúdo dedicado ao catolicismo e a causa monárquica. Durante 10 anos Harden-Hickey foi o editor do Le Triboulet, contestou muitos processos judiciais, foi multado em mais ou menos 300.000 francos e acabou enfrentando uma deportação como americano indesejável. O governo francês desaprovava comentários antirrepublicanos e como Harden-Hickey não tinha renunciado a sua cidadania americana, fontes do governo fecharam Le Triboulet e expulsararam-no da França em 8 de agosto de 1888.
Com sua vida e a carreira profissional em farrapos, se divorciou de sua esposa, e buscou um novo desafio, partiu em uma viagem de um ano em volta do mundo. Partiu de Londres, a bordo do navio Astoria, no Outono de 1888, ele pode ter observado a remota ilha de Trinidad (não deve ser confundida com a conhecida ilha de Trinidad, que pertencia às Índias) em suas viagens através do Atlântico Sul. Experiências na Ásia e no Extremo Oriente o inspirou a escrever um livro sobre o budismo.
Em 1890, Harden-Hickey mudou-se para a América, estabeleceu-se em Nova Iorque e casou-se com Miss Annie Harper Flagler, filha do financista milionário John H. Flagler.
 Cansado do mundo de negócios nada romântico do seu sogro, na Florida, de hotéis, fazendas de gado, minas e petróleo, talvez inspirado pelo escritor britânico e aventureiro E. F. Knight cujos livros "O cruzeiro do falcão", em 1881 e novas aventuras a bordo do "Alerte" em 1889, em busca do tesouro pirata nesta remota ilha de 5 por 3 milhas, no Atlântico Sul. Knight escreveu "... Trindade certamente parece um lugar selvagem e pouco convidativo, uma massa precipitada de rocha vulcânica estéril com elevados cumes inacessíveis, toda a superfície preenchida com picos como agulhas afiadas..." só não posso explicar por que ele voltou sua atenção para esta ilha rochosa pouco atraente.
James Aloysius de repente anunciou na primeira página do New York Tribune, datada de domingo, 5 de novembro de 1893, de sua tomada de posse da ilha desabitada e da criação do Principado Independente de Trindade, com o título de "Rei James, o primeiro do Principado de Trindade". Enviou uma proclamação a vários países, noticiando e propondo colonizar a ilhota para cultivar as artes e ciências. Chegou a instalar uma chancelaria no nº 217, oeste 36ª Street em Nova York. E seu amigo Conde de La Boissiere, foi nomeado Ministro dos negócios estrangeiros.
Títulos foram vendidos para incentivar os colonos e os investidores e um conjunto de selos foi emitido, impresso em Viena, Áustria.
Em 15 de outubro de 1894, a Chancelaria de Trindade em Nova York, emitiu um decreto oficial da "administração postal do Principado de Trindade" anunciando a emissão de um conjunto de selos postais.
Por este meio, o público é informado que no dia primeiro de novembro de 1894, os seguintes selos serão emitidos:
5 cêntimes em verde e preto, 10 cêntimes em marrom e preto, 25 cêntimes em azul e preto, 50 cêntimes em laranja e preto, 75 cêntimes em lilás e preto, 1 franco em vermelhão e preto, 5 francos em cinza e preto. Estes selos têm a forma de um retângulo e apresentam uma vista da ilha com um veleiro e a legenda: Principauté de Trinidad – Timbre Poste et Fiscal.
 Além disso: Envelopes em 5 cêntimes e 15 cêntimes em papel branco e amarelo, cartões postais 10 x 10 de  em 5 e 10 cêntimes no cartão amarelo com o selo impresso semelhante aos selos postais, carta postal (inteiro postal) de 15 cêntimes em cartão azul e rosa.
 
As emissões dos selos projetadas por James Aloysius Harden-Hickey não chegaram a circular, pois não existiam habitantes na Ilha de Trindade.
Os selos foram mencionados pela primeira vez em vários periódicos filatélicos, no início de 1895. Para Stanley Gibbons esta leitura: Nós recebemos uma longa carta de um correspondente, em quem nós temos toda a confiança, assegurando-nos que Príncipe James e sua ilha no meio do Atlântico, sua emissão de selos e da mesma forma sua ordem de Croix de Trinidad, são perfeitamente genuínos e respeitáveis e em todos os sentidos para ser elogiado. O governo do Principado é uma "ditadura militar"; nada poderia ser mais satisfatório, especialmente enquanto a ilha permanece desabitada. Para os quais temos apenas a resposta, que se se for assim, e se os selos são emitidos para alguma finalidade postal autêntica, não deveria importar com o príncipe James ou com os amigos dele, se os colecionadores devem comprá-los ou não; se por outro lado, eles foram fabricados exclusivamente para venda para colecionadores, seria melhor deixar o Príncipe James colecioná-los ele mesmo. Em qualquer caso, nossos leitores não perdem nada por esperar.
Os selos foram oferecidos à venda por Stanley Gibbons na revista mensal na edição de 28 de fevereiro de 1895. Um conjunto completo, composto por sete valores estava em oferta por 12 xelins. Estes selos foram retirados da venda.

No dia 3 de janeiro de 1895, o navio de guerra britânico Barracuda ancorado ao largo da costa, desembarcou tropas na ilha de Trindade. Os britânicos tinham a intenção de construir uma estação de cabo.
Eles tinham tomado posse, afirmando que a ilha era britânica desde que Edmond Halley pôs os pés na ilha 200 anos antes.  O Brasil, por outro lado, tinha idéias diferentes sobre soberania e somente a mediação pelo governo português desativou a situação. O governo britânico, por conseguinte, abandonou a idéia.
Embora a disputa entre Brasil e Grã-Bretanha sobre a controvérsia da soberania estava perturbada. De la Boissiere dirigiu uma carta de protesto a Richard Olney, o Secretário de estado dos Estados Unidos, exigindo que os Estados Unidos. interviesse.
GRANDE CHANCELARIA DO PRINCIPADO DE TRINDADE"
217, Oeste 36ª Street , Nova Iorque, Estados Unidos da América
Nova Iorque , 30 de julho de 1895
"A sua Excelência o senhor Secretário da República dos Estados Unidos da América do Norte, Washington , D.C."
(Em parte....)
Excelência – tenho a honra de recordar a sua memória:
1. no curso do mês de setembro de 1893, Barão Harden-Hickey notificou oficialmente a todos os poderes de sua tomada de posse da desabitada ilha de Trindade ; e
2. que no decorrer do janeiro de 1894, renovou a todos estes poderes a notificação oficial da referida tomada de posse e informou-lhes ao mesmo tempo que, a partir dessa data, que a terra seria conhecida como "Principado de Trinidad;" que ele tomou o título de "Príncipe de Trinidad" e teria a reinar sob o nome de James.
... Eu imploro a vossa excelência para pedir ao governo dos Estados Unidos da América do Norte para reconhecer o Principado da Trindade como um estado independente e para chegar a um entendimento com as outras potências americanas a fim de garantir a sua neutralidade... Na expectativa de sua resposta, aceite, por favor. Excelência, a expressão da minha elevada consideração.  
O Grão Chanceler, Secretário dos negócios estrangeiros, Conde de La Boissiere
A carta de La Boissiere teve pouco efeito; o Secretário de Estado dos EUA ignorou o protesto e passou cópias da carta para a imprensa, que por sua vez ridicularizou o Chanceler e o Principe James, com uma exceção: O New York Times. Henri Pene du Bois, o crítico de arte americano de renome e seu editor-chefe do jornal, Henry N. Carey, escreveu sobre sua situação.
James Aloysius Harden-Hickey, tendo sido ridicularizado e despossuído de seu território da ilha, sentiu amargamente, ao longo dos próximos anos, ele viveu uma vida de tristeza recolhido em seu rancho, no México. Até tentou planejar uma invasão contra a Inglaterra com ex-patriotas de seu lar ancestral na Irlanda, mas foi incapaz de ganhar o apoio financeiro do seu sogro. Ele culpou os britânicos por sua intervenção da ilha dois anos antes.
No dia 2 de fevereiro de 1898, Harden-Hickey saiu do México indo para a Califórnia. Ele interrompeu sua viagem e deixou o trem em El Paso, Texas, se hospedou em um hotel. Ele então passou vários dias sozinho e deprimido. Em 9 de fevereiro, no fim da noite, Harden-Hickey tomou uma overdose de comprimidos de morfina; seu corpo foi encontrado na manhã seguinte. Ele deixou uma nota de suicídio endereçada à sua esposa que dizia, em parte... "Devo ter provado o cálice da amargura até a borra, mas eu não reclamo. Adeus. Eu perdôo sua conduta em relação a mim e a confio que você será capaz de perdoar a si mesmo. Eu prefiro ser um cavalheiro morto do que um vilão como seu pai."
Esta Cinderela do Principado de Trindade foi produzida por John Souza de Lowell, Massachusetts, U.S.A. em 1970. Ele mostra um retrato do Príncipe James I e os anos da sua vida, 1854 – 1898. A etiqueta é impressa em preto sobre papel verde.
Nada se manteve do "Principado de Trindade", exceto os selos e a ilha é claro; Agora, um centro de investigação oceanográfica instituído pelo governo brasileiro.
Esta etiqueta de origem desconhecida mostra uma silhueta da ilha de Trindade e valor de "5C". É impressa em verde no papel fibroso, a qualidade da produção é muito pobre.
Escrito por Robert D. Shaw
De outubro de 2005
Inspirado por Thomas Whigham (Professor de história-Universidade da Geórgia)
Somente por ocasião da morte do “Príncipe” é que foram encontrados os selos na sua bagagem, além da sua coroa de ouro e insígnias de uma “Ordem de Trindade” criada por ele.



1894 – Os raros selos da Ilha Trindade, 5 e 10 centimes, novos, com marca de charneira. Valor estimado de R$ 4.100, em 2005.
Os selos acima existem com a sobrecarga “Officiel”. Selos com sobrecarga espécime são extremamente raros e existem somente dois cancelado cópias dos carimbos de Trindade. Selos do Principado de Trindade são vistos em ocasiões muito raras em leilão.
Algumas consultas:
Os selos postais da República Independente da Guiana. Wolfgang Baldus, Heilwigstr. 85, 81827 Munique, Alemanha, artworkbaldus@smp-munich.de

domingo, 29 de maio de 2016

OS SELOS LOCAIS BRASILEIROS POR ADOÇÃO - V

Artigo de Carlos Alberto Tavares Coutinho


Estado Independente do Acre

As primeiras correntes migratórias se dirigem para os vales do Purus e do Tarauacá, no rastro da descoberta da borracha no século XIX, pelo homem branco.
A presença de brasileiros na região - que, conforme estipulavam os tratados de Madri (1750) e Santo Ildefonso (1777), integrava a Bolívia atual - implicou na elaboração de outro acordo, entre o Brasil e a Bolívia. Foi o Tratado de Ayacucho de 1867 que fixou a fronteira entre os dois países pela confluência dos rios Beni-Mamoré, no rumo do Leste - uma linha de demarcação ainda pouco definida.
A grande seca de 1877-79 no Nordeste provoca a fuga sucessiva de nordestinos, principalmente cearenses, para o Acre, em busca de terras para plantar.
Já em 1890 após a nova seca de 1888-89, portanto, extensas faixas do território acreano são ocupadas por imigrantes brasileiros, burlando o Tratado de Ayacucho.
Em 1895 foi nomeada uma Comissão Demarcatória encarregada de definir os limites entre Brasil e Bolívia de acordo com o estabelecido no Tratado de Ayacucho de 1867. O Chefe da delegação Brasileira, o Cel. Thaumaturgo de Azevedo constatou que ratificando o Tratado existente o Brasil perderia vasta região rica em látex.  Na época o Ministro brasileiro não aceitou os argumentos do Cel. Thaumaturgo, que pediu demissão e na imprensa mobilizou a opinião nacional. O novo Comissário capitão-tenente Cunha Gomes obedeceu a Chancelaria e aceitou os termos do velho tratado. 
O governo boliviano enviou para o Alto Acre uma expedição militar de 30 praças, comandada pelo Major Benigno Gamarra.
Com inúmeras dificuldades (fome, etc.) em setembro de 1898 a expedição conseguiu chegar à vila de Xapuri, onde anunciou que fundaria uma Delegação Nacional.
Insatisfeitos, alguns brasileiros, tendo à frente o Coronel da Guarda Nacional Manuel Felício Maciel, intimaram aos bolivianos que se retirassem imediatamente dali, o que acabou ocorrendo no dia 30 de novembro de 1898. 
Em 02 de janeiro de 1899 chegou ao Acre, por via fluvial, com a concordância do governo brasileiro, o ministro Plenipotenciário Boliviano Dom José Paravicini que efetivamente instalou uma aduana e um povoado denominado Puerto Alonso, em terras do Seringal Caquetá, pouco acima da famosa Linha Cunha Gomes.
Paravicini baixou sucessivos decretos, dentre os quais, o polêmico ato de abertura dos rios amazônicos ao comércio internacional, que feria profundamente a soberania brasileira. Arrecadou grandes somas com os impostos sobre a borracha, exigiu a imediata demarcação dos seringais e a regularização das propriedades, até então registradas no Estado do Amazonas, causando temor aos habitantes dos altos rios acreanos.
A revolta começava a tomar corpo entre seringueiros brasileiros que não se conformavam em ter que obedecer a autoridades estrangeiras, enquanto multiplicavam-se as denúncias de violências cometidas contra brasileiros que se sentiam cada vez mais ameaçados em seus direitos. Com a partida do ministro boliviano para Belém, depois dos chamados “Cem dias de Paravicini”, os acreanos decidiram se unir para lutar contra a dominação boliviana. 
Em 1º de maio de 1899 seringalistas reunidos no Seringal Bom Destino, de Joaquim Vitor, sob a liderança do jornalista José Carvalho decidiram que era chegada a hora de expulsar o delegado boliviano, Moisés Santivanez, que havia substituído Paravicini no comando de Puerto Alonso.
Intimadas, as autoridades bolivianas não resistiram ao movimento revolucionário e partiram para Manaus. Mesmo sem o disparo de um tiro, estava iniciada oficialmente a Revolução Acreana com a assinatura de um manifesto por mais de 60 proprietários de seringais. Para dar direção ao movimento foi estabelecida uma Junta Central Revolucionária.
Pouco tempo depois, José Carvalho retornou para Manaus doente de impaludismo. 
Luis Galvez, então repórter em Belém, descobriu e denunciou nos jornais paraenses (03/06/1899) a existência de um acordo secreto estabelecido preliminarmente entre diplomatas da Bolívia e dos Estados Unidos da América, que formalizava uma aliança entre os dois países. Em caso de guerra entre o Brasil e a Bolívia pelo domínio do Acre, os Estados Unidos apoiaria militarmente a Bolívia.
Isso chocou a opinião publica brasileira, apesar das autoridades bolivianas e norte-americanas negarem estas denúncias.
Com patrocínio do Governo do Amazonas, Galvez viajou ao Acre e com os seringalistas funda o Estado Independente do Acre, já que o governo brasileiro continuava reconhecendo os direitos bolivianos sobre o Acre.
Em 14 de julho de 1899 (aniversário da Queda da Bastilha), foi criado o Estado Independente do Acre, com capital na Cidade do Acre (como passou a ser chamada Puerto Alonso) e Luiz Galvez foi escolhido, por aclamação, como Presidente do novo país.
.Não foi bem da maneira que conta Márcio Souza no divertido Galvez, Imperador do Acre. O espanhol proclamou uma república independente e, para forçar o reconhecimento internacional e poder passar a cobrar taxas de exportação da borracha, promoveu um boicote da venda deste produto. No dia seguinte, pelo decreto nº 1, de 15 de julho de 1899, Luiz Galvez Rodrigues de Arias, chefe do governo provisório, proclama a independência do Estado do Acre e cria o Estado Independente do Acre.
Logo Galvez organizou internamente o Acre e inúmeras correspondências foram expedidas para diversos países da Europa e da América para obter o reconhecimento internacional do novo país.
Galvez organizou o novo país em diversos aspectos: saúde, educação, forças armadas, legislação, etc. Criou a bandeira, o hino, as armas. Baixou 27 decretos, parte destas leis, avançadas para a época, prejudicavam interesses de alguns seringalistas. Pelo decreto nº 15, Galvez organiza os correios e, encomenda à Casa Impressora Monckes, de Buenos Aires, a confecção de diversos selos com valores diferentes.
Em 2009, o texto de Evaldo Ferreira, no site Tarauacá Noticias, citava: Você pagaria US$ 5 mil por um pequeno pedaço de papel de 2,5 x 3,5 cm? Não? Pois saiba que existe gente que pagaria até mais para ter a posse do selo mais raro do Brasil e um dos mais raros do mundo, o Selo do Acre, do qual, 101 anos depois de sua exígua circulação, restam apenas seis exemplares, segundo um dos seus possuidores, o empresário Joaquim Marinho, de Manaus.
 Impresso em amarelo, com centro verde, tem no medalhão a reprodução de um arbusto, que tanto pode ser de tabaco, de café ou de uma seringueira (o desenho não é dos mais esclarecedores). Vem encimado pela estrela solitária, que até hoje identifica o Acre. Do lado esquerdo, a reprodução de uma casa de caboclo, de palha, e, do lado direito, uma tartaruga, estranhamente, apoiando-se numa só pata e olhando para o alto. Até hoje não apareceu um pesquisador ou historiador que explicasse o fato. Na parte superior do selo o ano da emissão, 1899, e a palavra Correio, na posterior, 300 réis. Um círculo duplo cerca o medalhão central com os dizeres "Estado Independente do Acre", no alto e "Pátria e Liberdade", em baixo. A denteação é 10 1/4 e o processo de impressão usado foi o da litografia em papel linho. Ainda sobre a impressão feita na Argentina. Galvez morou vários anos lá, onde trabalhou no serviço diplomático. A confecção dos selos foi de responsabilidade da Casa Impressora Monckes, de Buenos Aires, onde foram impressos 50.000 selos em folhas com 50 exemplares, despachados para o Acre, via Manaus, e apreendidos por uma canhoneira brasileira que, após a saída de Galvez, dirigia-se ao Acre para contornar a situação. Os selos foram incinerados, sobrando apenas uma folha de 50 exemplares que havia sido enviada a Galvez como prova. Acredita-se que estas provas foram distribuídas por ele entre os amigos. Em 1978 Marinho viajou até Buenos Aires para pesquisar junto à Casa Monckes, mas esta não existia mais.
É sabido que todos os selos foram destruídos, porém, são conhecidos alguns exemplares remanescentes de uma única folha que havia sido enviada como amostra. Existe um único múltiplo conhecido, tratando-se de um par horizontal.   
A oposição, liderada pelo seringalista Antônio de Souza Braga, depôs Galvez no dia 28 de dezembro de 1899, tornando-se o novo Presidente do Acre. Incompetente, Braga chamou de volta Galvez, que assumiu novamente a Presidência no dia 30 de janeiro de 1900.
O governo federal mandou para o Acre uma força tarefa da marinha brasileira para destituir Galvez e devolver o Acre ao domínio boliviano. Isto aconteceu, sem resistência, no dia 15 de março de 1900. 
Os boatos tornam-se realidade, em 11 de julho de 1901 a Bolívia assina um contrato de arrendamento do Acre com um sindicato formado por capitalistas norte-americanos e ingleses, liderados por Whitridge. Logo depois chegou ao Acre D. Lino Romero, autoridade boliviana encarregada de preparar o Acre para o sindicato, que seria instalado em 2 de abril de 1902.

Após esta enorme bomba, ameaça concreta à soberania brasileira sobre a Amazônia, o governo começa a tomar ciência, mas sem eficiência.
(continua)